"Na atual sociedade da informação, o que se procura (...) é o líder sábio, cuja capacidade de guiar as pessoas seja apurada pelos caminhos do conhecimento e da ética"

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mate suas vacas sagradas

A cidade de São Paulo está toda enfeitada com o ‘Cow Parade’, uma exposição de vacas que vem correndo o mundo desde 1998 e vêm tendo sucesso como forma de expressão e democratização da arte na rua. Por onde passou, o ‘Cow Parade’ têm gerado uma nova mania na forma de coleções de miniaturas, integração com comunidades, arrecadação de fundos, eventos paralelos com artistas locais, etc. Muita gente já está ‘caçando’ as mais de 80 vacas espalhadas pela cidade.

Mas do outro lado do mundo existe também uma grande profusão de vacas que são mais adoradas e veneradas do que estas. Os hindus têm a vaca como um animal sagrado e não se toca em uma vaca por nada. Os animais circulam livremente pela cidade e podem destruir impunemente qualquer plantação sem serem molestadas. Qualquer um que se atrever a mexer numa delas corre risco de morte. Um povo que padece de fome e miséria com um dos maiores rebanhos do mundo. 

As empresas também possuem suas vacas sagradas. Elas não são artísticas nem ficam expostas. Pelo contrário, ficam escondidas e muita gente sequer sabe que elas existem. A maioria circula livremente pela empresa e ninguém se atreve a reconhecê-las e muito menos tocá-las. No mundo corporativo, as vacas sagradas são velhas práticas, hábitos e rituais que fizeram sentido no passado, perdeu-se seu sentido ao longo do tempo, mas as pessoas se recusam a matá-las porque implicaria em mudanças, ameaças ao equilíbrio, perda do status quo, incertezas e instabilidade.

Por causa delas é que existe muita ineficiência, re-trabalho, desperdício, burocracia e falta de recursos. As vacas sagradas nos impedem de crescer, evoluir e inovar. Elas nos prendem ao passado e a tarefas ou atividades sem sentido e comem nosso lucro e produtividade. Normalmente ouvimos frases que denotam sua existência, como: ‘Nós sempre fizemos assim’, ou ‘time que ganha não se mexe’, ou ainda ‘Isso não dá para mudar’. O consultor americano Robert Kriegel, autor do livro ‘As vacas sagradas dão os melhores bifes’ cita alguns exemplos de vacas sagradas corporativas:

A vaca tempo: Ninguém mais tem tempo para nada. Se você pergunta para alguém como ela está e a resposta invariavelmente é ‘lotado de trabalho’, ‘atolado’, ‘enroladíssimo’. Mesmo que você esteja com pouco trabalho, jamais falaria isso. Não ter tempo virou uma resposta padrão.

A vaca de papel: É preciso que tudo seja documentado, escrito, impresso, copiado, formalizado por email ou qualquer outra forma de registro para se isentar da culpa do ‘eu não sabia’

A vaca especialista: A última palavra é sempre de quem conhece mais o assunto. Muitas vezes sua opinião é lei, mesmo que sejam idéias de ontem que não servem para os problemas de hoje. Se você ‘ouvir a voz da experiência’ nunca vai mudar nada.

A vaca cliente: A alusão de que o cliente é o rei, soberano em suas necessidades, desejos e expectativas. O cliente está sempre certo e ele sempre sabe o que quer. Atender e satisfazer o cliente antes de qualquer outra coisa é o mantra nas empresas.

Muitas vezes, nós mesmos criamos estas vacas ou as defendemos sem saber disso. Devemos partir do pressuposto que nada é sagrado e nos policiarmos através das outras pessoas para ver se não estamos adotando uma postura defensiva injustificada. Se uma atividade não melhora a produtividade, a qualidade, os lucros nem a motivação, são grandes as chances de ser uma vaca sagrada.

Kriegel dá ainda algumas dicas para saber se algo é sagrado:
- Pergunte a si mesmo: ‘O que aconteceria se isso parasse de ser feito?’
- Descubra a origem das coisas: ‘Quem criou esta política ou prática? Porque? Quando?’
- Cortesia interna: ‘O que chega na sua mão vindo de um departamento que não tem idéia do significado deste processo?’
- Identifique coisas que o incomodam: ‘Porque tem que ser assim?’

Outra forma de encontrar vacas é perguntando aos novatos. Eles têm a mente limpa e livre destes paradigmas e conseguem identificar as vacas com mais facilidade. Outro dia, minha filha perguntou à sua mãe porque nós jantamos tão cedo: ‘Mãe, 6 e meia é muito cedo, eu tomo lanche na escola, não tenho fome. Nenhuma amiga minha janta tão cedo!’ ao que a mãe retruca: ‘Faz bem comer cedo, filha, não podemos dormir de estômago cheio. Desde que eu era criança jantamos cedo’ e resiste aos apelos da filha: ‘Mas mãe, nós só dormimos depois das 10!’.

Inconformada, vai perguntar à avó, que, por sua vez, responde laconicamente: ‘Não sei querida! Eu janto neste horário desde que era menor do que você. Acho todo mundo tinha fome neste horário’. A saída era perguntar à bisavó, se ainda estivesse viva, mas, numa festa da família ela conheceu o irmão mais velho da sua avó . Ela não se fez por rogado e foi até o fim na sua investigação: ‘Tio, porque vocês jantavam tão cedo quando eram crianças?’

‘É que naquela época vivíamos no interior e trabalhávamos na roça. Não tínhamos luz elétrica. Acordávamos e dormíamos com o sol. Em certas épocas do ano, seis da tarde já era noite para nós e acendíamos o lampião apenas para jantar e nos lavar. Depois era cama direto’.

Bem, minha filha não teve força política para usar estes argumentos e mudar hábitos tão arraigados na família, mas de vez em quando, durante o jantar, ela apaga as luzes para dar um pouco mais de sentido àquela vaca sagrada.


Fonte: Administradores

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